Rafa Nascimento

Software Product Studios: desenvolvendo aplicações inovadoras e profissionais competentes

Posted in cultura by Rafa Nascimento on 06/08/2013

No Brasil, a quase totalidade do mercado de tecnologia é composta por fábricas de software e consultorias de desenvolvimento de software. Nestes modelos, o principal foco é vender mão-de-obra. Há, basicamente, 2 formas de se fazer dinheiro nestes modelos: projetos de software e manutenção de software. As fábricas e consultorias dispõem de mão-de-obra (nem sempre) qualificada, e cobram às empresas pela utilização de sua capacidade de produção, relegando projetos de software e a manutenção dos mesmos a meros contratos de prestação de serviço de desenvolvimento de software.

O surgimento das fábricas e consultorias de software
Antes de revolução industrial, todo trabalho era realizado de forma manual. No máximo, com a ajuda de uma ou outra pequena ferramenta. Quando a demanda era muita, os trabalhadores organizavam-se em grupos para atender a necessidade. Com a competição cada vez mais acirrada promovida pela revolução industrial, estes trabalhadores viram seu trabalho ser industrializado e reproduzido em larga escala. Eles não precisavam mais se preocupar com os custos de matéria-prima, mas também perderam seus lucros para os donos de indústrias. O modelo industrial de produção em larga escala espalhou-se por todo o mercado de trabalho, firmando-se como regra. Para atender às indústrias surgiam, em paralelo, as grandes corporações para prestação de serviços administrativos.
Com o crescimento da tecnologia e a explosão da computação nos anos 70, as corporações e indústrias passaram a utilizar computadores para automatizar processos repetitivos e economizar em mão-de-obra, gerando a necessidade por profissionais que soubessem operar e programar os computadores. Surgia, então, o departamento de processamento de dados, que posteriormente viraria o departamento de TI. Porém, rapidamente o alto custo destes departamentos fez com que eles passassem por um processo de downsizing, que manteve nas empresas apenas gestores e analistas de sistemas à época. Como resultado deste processo, as empresas ficaram responsáveis apenas por manter seus sistemas funcionando e solicitar o desenvolvimento de novos sistemas à empresas terceiras, detentoras de mão-de-obra qualificada: as fábricas de software e consultorias de desenvolvimento de software.

Os problemas do modelo
Os problemas deste modelo de negócio são inúmeros. Tenho certeza que, com quase 15 anos de carreira, só conseguirei enumerar alguns de muitos outros que você pode apontar. É inegável que o modelo é lucrativo se pensarmos que o software pode ser montado como um carro. Pena que não é. Além disso, o modelo é danoso para o mais importante dos 3 pilares (produtos, processos, pessoas) de uma empresa: pessoas.
Neste modelo, o principal foco é o cumprimento de um contrato baseando-se em alocação de mão-de-obra especializada. Seja em um projeto, em uma equipe remota de suporte à produção ou diretamente no ambiente do cliente. Como os contratos, em sua grande maioria, são formatados em valor-hora, o cliente fica obrigado a garantir que o dinheiro está sendo bem investido. Ou seja, que as pessoas destinadas ao seu contrato estão produzindo cada minuto das horas contratadas, ou das horas que estão sendo pagas. Daí surge o primeiro problema: além de cobrar-se por um trabalho abstrato de forma exata e concreta, não há investimento na competência dos profissionais, e frases como “porque dar treinamento se as pessoas vão embora?” surgem. Com isso, gera-se a famosa rotatividade de profissionais nas fábricas e consultorias de software. É bom frisar que cada um é responsável pelas suas próprias competências. Também é bom frisar que uma empresa, um conjunto de pessoas, também é responsável por suas competências. Que reside nas pessoas. Principalmente quando falamos em trabalhadores do conhecimento. Junta-se a isso o fato de que, se considerarmos que todo software é composto de conhecimento sobre tecnologia e conhecimento sobre negócio, podemos dizer que metade do conhecimento do software vai embora com cada pessoa que busca uma recolocação no mercado. Invariavelmente, a insatisfação é a mesma: cobrança baseada em cronogramas ou em contratos e falta de investimento em competência.
O segundo problema é o foco no produto errado. Quando se trabalha com alocação de mão-de-obra no modelo homem-hora, o produto passa a ser as horas produtivas das pessoas. E, para os clientes, as horas produtivas dos profissionais das fábricas e consultorias são as horas que os desenvolvedores utilizam resolvendo problemas em produção através de uma linguagem de programação ou despejando código em um projeto, onde ele faz parte de uma “equipe”, porque em “equipe” o sistema não demora tanto para ser desenvolvido.
Segundo Julio Sergio Cardozo, professor e ex-CEO da Ernst & Young, no artigo “O Fim do Taxímetro”, o modelo de negócio utilizado nos últimos 200 anos pelas empresas de serviços profissionais pode ser expresso pela seguinte equação:

Receita = quantidade de profissionais x eficiência x taxa horária

Nessa equação, a quantidade de profissionais representa todo o contingente de profissionais que possa ser destacado para prestar serviços aos clientes; a eficiência corresponde à combinação de horas disponíveis e a taxa média de débito a clientes ou de utilização desses profissionais; e a taxa horária, ou taxa de realização, significa o valor médio por hora cobrado pela empresa.
No artigo, Julio sugere a aposentadoria do timesheet e um modelo de precificação por mérito ou benefício gerado, expresso pela seguinte equação:

Lucratividade = capital intelectual x preço x eficácia

Essa equação, quando comparada com a equação que representa o modelo tradicional, mostra alterações substanciais no modelo de negócio. A troca de receita por lucratividade como resultado da equação se deve ao fato de que a gestão sadia do negócio não busca o crescimento pelo crescimento, e sim a solidez financeira do empreendimento.
Outra troca igualmente notável é de taxa horária por preço, pois, afinal, o cliente não está comprando horas, o que, aliás, nada significa para ele, que busca soluções para suas necessidades. No novo modelo de negócio aqui proposto, a precificação está diretamente correlacionada com o valor entregue ao cliente, ao benefício que lhe é proporcionado. É uma quebra de paradigma para a qual os profissionais precisam estar mental e emocionalmente preparados e dispostos. E não é rápida.

Os 2 pilares do desenvolvimento de software
Há 2 pilares essenciais no desenvolvimento de software, que funcionam em retro-alimentação: produto e pessoas. Se você tem um produto, ou uma visão, relevante e inspirador o suficiente, você consegue boas pessoas trabalhando ao redor da causa. Se você tem pessoas cada vez mais competentes e autônomas trabalhando ao redor do seu produto ou da sua visão, ele pode se tornar cada vez mais relevante, útil e bem-sucedido. E é este equilíbrio que precisa ser atingido através de processos que maximizem as interações positivas e minimizem as interações negativas no ambiente de trabalho, criando um ambiente produtivo e próspero para o produto e para as pessoas envolvidas em seu desenvolvimento.
Felizmente, o mercado brasileiro vê, hoje, uma nova forma de trabalhar o software. Alguns já falam na “era da economia de software”. Ironicamente, uma forma bem-sucedida há décadas no Vale do Silício. Vemos o surgimento de cada vez mais startups com foco em um produto e que conseguem, na grande maioria das vezes, as melhores cabeças pensantes da indústria e investem pesado no desenvolvimento de suas competências. Não por acaso, muitos desenvolvedores, experientes ou não, estão migrando para as startups de produtos. Não é só a autonomia de uma empresa-bebê que seduz. É, também, o foco em um único objetivo que chama a atenção. Ainda mais quando é um objetivo com o qual você se identifica em seus valores.
Em uma fábrica de software, normalmente temos unidades de negócio (organizadas de forma hierárquica e, por conseguinte, errônea) atendendo cada uma a um cliente (ou “conta”) específico. Nesta unidade, há a disponibilidade de diversos desenvolvedores, que são alocados de acordo com o seu conhecimento em determinada tecnologia. Ou seja: há os profissionais que cuidam de sistemas em Java, há profissionais que cuidam de sistemas em .NET, há os que cuidam de Cobol, há os DBAs e assim por diante. Normalmente, estas unidades de negócio prestam serviços de desenvolvimento de novos sistemas e suporte a sistemas já existentes. Assim, há uma frequente alocação e desalocação de desenvolvedores em frentes diferentes de trabalho, fazendo com que os mesmos acabem precisando focar em mais de 1 sistema ao mesmo tempo, para garantir que suas horas estão 100% preenchidas em um dia de trabalho.
Já em uma empresa focada em produtos, é possível ter equipes mais homogêneas, focadas em 1 problema por vez e em problemas menores, possibilitando o crescimento da qualidade do produto que está sendo desenvolvido e disponibilizado aos clientes. Pode haver equipes focadas em produtos distintos (37 Signals), ou equipes focadas em partes distintas de um grande produto (Facebook), mas todas as equipes são orientadas a um aspecto de negócio, com uma grande mistura de tecnologias, e não são orientadas a determinadas tecnologias, gerando, assim, equipes verdadeiramente multidisciplinares.

Software Product Studios
Em um mercado cada vez mais focado em pessoas, há cada vez menos espaço para o modelo de fábricas e consultorias de software. Um modelo ainda industrial, de altos lucros e que acredita que o trabalho de desenvolvimento de software pode ser padronizado e replicado em larga escala através da contratação de mais e mais desenvolvedores. Teorias como Management 3.0, empresas como a Evernote e o Facebook, as experiências das agências digitais e dos estúdios de aplicativos móveis já nos provaram que a criatividade essencial para o desenvolvimento de softwares inovadores e realmente úteis está muito longe do modelo de fábricas e consultorias.
Trabalhar o software como produto, e não como serviço, pode ser a maneira mais eficaz de gerar inovação, por ser um modelo que depende e muito da autonomia, do conhecimento e da maestria de seus profissionais, fazendo com que as empresas invistam cada vez mais em suas competências em troca de ideias colocadas em prática para produtos com os quais seus profissionais se identificam e querem ver crescendo e ganhando mercado.
Em um mercado mais justo, onde um produto, em grande parte, é vendido através de sua reputação, e não através de esforço de vendas de analistas comerciais e seus contatos, há espaço para cada um desenvolver o seu melhor em nichos específicos, e competir em um formato onde o vencedor tem mais qualidade, e não o menor preço.

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