Rafa Nascimento

Back to the Basics: o poder das restrições

Posted in cultura by Rafa Nascimento on 09/06/2013

Serra

Neste sábado, dia 8 de junho, viajei até Nova Friburgo, atendendo a um convite para palestrar em um evento organizado pelo Serra do Silício, um movimento de alguns empresários e profissionais liberais da área de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação) da região que visa unir toda a categoria para alavancar negócios, gerando emprego e renda. Uma alusão ao Vale do Silício, nos EUA. Este grupo organizou um ciclo de palestras especificamente voltado para a disseminação de métodos ágeis para o desenvolvimento de software e das disciplinas ligadas aos métodos. Foi um evento bastante proveitoso, principalmente, pelo visto, para os profissionais da região.

Nova Friburgo é um município do interior do estado do Rio de Janeiro, localizado a uma altitude média de 985 metros, na região serrana do estado. Hoje com aproximadamente 200.000 habitantes, possui uma economia baseada na indústria de moda íntima, olericultura, caprinocultura e indústria (têxtil, vestuário, metalúrgica e turismo) e é a cidade mais fria do estado.

Em média, as empresas da área de TIC de Nova Friburgo são fisicamente pequenas, com uma média entre 15 e 20 funcionários e um faturamento médio em torno de R$ 20.000,00 mensais. O salário médio de um profissional da região, seja um desenvolvedor ou um designer, gira em torno de R$ 1.500,00, atingindo raros picos de R$ 2.500,00. Comparando-se com a cidade do Rio de Janeiro, onde o salário médio na área, hoje, gira em torno de R$ 5.000,00, é fácil prever para onde os profissionais de Nova Friburgo que se destacam vão. Isso inclui, obviamente, a troca de conhecimento, experiências e o poder de capacitação da cidade do Rio de Janeiro.

Os maiores clientes que as empresas de TIC da região podem ter (as grandes indústrias) importam tecnologia da capital, de outros estados e até mesmo de outros países. Isso faz com que o mercado local de médias e pequenas empresas e o comércio local sejam a maior fonte de renda destas empresas, dificultando a retenção de bons profissionais e estagnando o mercado. Uma das poucas opções que sobram para os empresários locais de TIC é unir forças para fortalecer o mercado local.

Ao chegar para o primeiro Serra do Silício Talks, tive, de imediato, uma grande surpresa: casa cheia. O que demonstrou, de cara, o grau de comprometimento não só dos empresários em relação ao seu mercado local, mas também dos desenvolvedores e designers que ali trabalham. Conforme observei, conversei e, principalmente, escutei as histórias durante o dia, pude compreender que eu não deveria ter ficado tão surpreso: o tamanho do mercado (algumas centenas de profissionais de TIC, contra dezenas de milhares de profissionais da cidade do Rio de Janeiro) permite uma sinergia muito forte entre os empresários e os seus funcionários, chegando ao ponto de não se conseguir identificar quem é empregador e quem é empregado. Ambas as partes, guardadas as devidas proporções de informação às quais cada parte tem acesso, possui uma visão político-econômica muito boa da sua região e do seu mercado. Ambas as partes possuem um conhecimento muito bom de tecnologia. O respeito entre os profissionais e empresários é grande, porque o mercado é pequeno.

Conforme o desdobramento das palestras, pude perceber a presença de diversos empresários locais. Competidores. Sinceramente, eu não me lembro de observar algo parecido na cidade do Rio de Janeiro. O movimento não é liderado por 1 ou 2 grandes empresas que dominam o mercado local. É um movimento de todos juntos. Grandes, médios e pequenos. Iguais. Empresários, desenvolvedores e designers. Todos participando juntos do evento, e discutindo de igual pra igual. Neste momento, pude perceber o quanto a quantidade de degraus em uma hierarquia é nociva para a colaboração entre profissionais e a saúde de seus produtos.

Impressionou-me, também, durante o evento e mais ao final dele, a dificuldade que tive em identificar quem era empresário, e quem era funcionário. Os discursos, as dúvidas, os questionamentos e as dificuldades, salvo algumas exceções, eram os mesmos. Em uníssono. Isso porque não há negligência de informação em um mercado tão pequeno. Todos têm o mesmo nível de informação sobre o seu mercado, e acabam, sim, discutindo sobre todos os aspectos do seu mercado a qualquer momento e em qualquer lugar: de contratos a deploy. Naquele mercado, profissionais extremamente especializados não são bem aproveitados. É mais do que comum encontrar um designer que trabalhe com front-end, um desenvolvedor que que faça o mesmo, desenvolvedores levantando regras de negócio, empresários trabalhando junto no levantamento do ambiente de produção e até mesmo desenvolvedores discutindo aspectos econômicos do seu mercado enquanto mexem no Git.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os tipos de dificuldades que aqueles profissionais têm enquanto tentam trabalhar utilizando a filosofia Agile. Entre algumas dificuldades em comum com as que temos no Rio de Janeiro, e algumas que já superamos, algumas dificuldade que temos quase que em massa por aqui são praticamente estranhas por lá: a utilização de equipes legitimamente multifuncionais, participação dos funcionários em todo o processo decisório do software, responsabilidade pelo processo como um todo e a produtização do software, que é facilmente identificada por ali.

As restrições impostas pelo tamanho do mercado de TIC de Nova Friburgo obrigou aqueles profissionais a cultivar 2 valores que, na minha opinião, são fundamentais para que a filosofia Agile esteja presente em um ambiente profissional: simplicidade e humildade. Agradeço imensamente o convite do pessoal do Serra do Silício, a hospitalidade e, principalmente, a aula silenciosa sobre como os valores de uma comunidade fazem muito mais diferença e trazem muito mais benefícios e resultados do que metodologias e boas intenções, e permitem que um mercado se una em prol da sua própria sobrevivência, além da competição e do individualismo.

Para mim, foi extremamente importante voltar ao pequeno, voltar às dificuldades do restrito, e poder observar que, muitas das vezes, um banquete de opções não trará solução alguma, mas, sim, a falta delas.

Parabéns aos envolvidos. 🙂

Nokia Test: A essência do Scrum

Posted in scrum by Rafa Nascimento on 14/09/2010

A adoção do Scrum sempre gera dúvidas sobre sua boa ou má utilização. Isso porque o Scrum é uma framework, e como toda framework, o Scrum possui um grupo de valores essenciais para que o bom resultado da sua utilização seja percebido, apoiados por práticas que formam o corpo da framework. Tais práticas podem ser adaptadas à cultura de uma empresa ou até de um time, mas seus valores jamais devem ser esquecidos. Infelizmente, isso não acontece poucas vezes. E então, temos o que a comunidade denomina “Scrum But…”. O Scrum mal adaptado. Ter em mente que o Scrum é uma framework, e não uma metodologia, é o primeiro passo para não fazer “Scrum But…”, ou, pior, cair na armadilha do Agilefall (falar em termos ágeis, mas fazer waterfall).

De 2005 à 2007, a Nokia, desenvolvedora de telefones celulares, utilizadora do Scrum e preocupada com a boa implementação do mesmo na companhia, desenvolveu, por intermédio de Bas Vodde, pioneiro em agilidade e agile coach, o que ficou conhecido como “The Nokia Test”: um simples teste que os ajudavam a assegurar que a essência do Scrum estava presente em cada um de seus times.

O Nokia Test é dividido em 2 partes:

A primeira parte é: Você desenvolve software iterativamente?

  • Iterações devem ter seu tempo limitado em até 4 semanas.
  • Funcionalidades devem ser testadas e estar em funcionamento ao fim de cada iteração.
  • Uma iteração deve começar antes que as especificações estejam prontas.

A grande maioria dos times não passa nesta primeira etapa do teste.

A segunda parte do teste verifica se o Scrum é utilizado corretamente:

  • O Product Owner é conhecido.
  • Há um product backlog priorizado por valor de negócio.
  • O product backlog tem estimativas criadas pelo time.
  • O time gera gráficos de burndown e conhece a sua velocidade.
  • Não há gerentes de projeto (ou qualquer outra pessoa) perturbando o trabalho do time.

Este teste certamente assegura a utilização da essência do Scrum e do processo empírico para o desenvolvimento de software. Nenhuma empresa que tenta usar Scrum deveria dizer “nós tentamos usar Scrum” e desistir, sem ao menos ter um único time passando neste teste, e passando neste teste por algumas iterações.

O Nokia Test é exigente. É bem claro. Esteja preparado para enfrentar resistência ao utilizá-lo. Sempre existem forças em uma empresa que desejam utilizar Agilefall ou simplesmente desejam que a cultura ágil não tenha sucesso. “Quem mexeu no meu queijo?”, lembra?

Em 2008, Jeff Sutherland, co-criador do Scrum, evoluiu o teste de formato “sim ou não” para um sistema de pontuação, de 0 a 10. Em 2009, adicionou uma pergunta sobre o time. Este teste pode ser encontrado aqui.

O Nokia Test não é a resposta para todas as suas dúvidas sobre a utilização do Scrum, mas é um excelente termômetro que está sempre alertando quando os valores do Scrum e da cultura ágil estão sendo esquecidos. Quer saber se o Scrum está correto em sua essência? Passe no Nokia Test.

Tagged with: , ,
%d blogueiros gostam disto: